Google+ Followers

terça-feira, 5 de junho de 2018

Crítica: Una Mujer Fantástica (2017)

Daniela Vega como Marina Vidal em Una Mujer Fantástica de Sebastián Lelio, 2017



Somos apresentados a diferentes histórias sobre pessoas transsexuais, especialmente sobre mulheres trans. Transamérica (2005); Laurence Anyways (2012); Dallas Buyers Club (2013) e The Danish Girl (2015) são alguns exemplos de filmes que nos ensinam algumas lições relevantes sobre essas pessoas. No entanto, suas histórias são principalmente protagonizadas por atores cisgêneros, e isso não é bom. Segundo a filósofa americana e teórica de gênero, Judith Butler, há uma falta significativa de estudos sobre transgêneros. A maior parte é escrita por médicos. Tendo isto em mente, pode-se dizer que ainda há um longo caminho a percorrer até que pessoas transsexuais alcancem uma representatividade sólida. Felizmente, a sociedade tem dado alguns passos para oferecer às pessoas trans uma aceitação mais humanizada. Com a arte, isso pode ser mais acessível e, graças ao diretor chileno Sebastián Lelio, podemos ouvir uma das histórias dessas pessoas contada por uma mulher trans. "Una Mujer Fantástica" ou "Uma mulher fantástica" traz uma narrativa vívida e sensível que lucidamente permite ao espectador entender melhor a realidade de quem ainda figura o campo de questões psiquiátricas, de acordo com Código Internacional de Doenças – CID 10.

Marina Vidal e seu amado parceiro, Orlando, interpretado por Francisco Reyes em 'Una Mujer Fantástica'

[Alerta de spoiler]

Em Santiago, no Chile, Marina Vidal, uma garçonete durante o dia e cantora estilo lounge à noite, comemora seu aniversário. Quando seu namorado muito mais velho, Orlando, a visita em seu local de trabalho naquela noite, temos uma sensação crescente de presságio. Eles vão para um jantar romântico, em que ele planejava dar a ela uma passagem para as Cataratas do Iguaçu. No entanto, Orlando,proprietário de uma empresa de tecelagem, afirma que não sabe onde a deixou. O encontro romântico do casal continua em seu elegante apartamento. Mais tarde, Orlando acorda com dificuldades para respirar. Enquanto ele espera Marina preparar-se para levá-lo ao hospital, ele parece desnorteado e cai da escada. O amante de Marina sofre um aneurisma e morre pouco tempo depois no hospital. Ela terá que enfrentar uma  difícil jornada para provar que assim como todo mundo, é um ser humano com sentimentos e desejos. O filho de Orlando aparece no apartamento de seu pai na manhã seguinte e Marina é ameaçada de despejo do local. Outros membros de sua família também a tratarão com muito desdém. O que eles sentem por ela não tem nada a ver com o fato de que Orlando deixou abandonou o lar, e sim porque se envolveu com uma transsexual, algo perverso sob o olhar marginalizador da sociedade. As atitudes dos membros da família revelam uma transfobia enraizada . A história de Marina é apenas uma moldura de muitas outras que não ouvimos com frequência, porque transsexuais têm sido ostracizadas há tanto tempo que, embora muitas delas tenham alcançado seu nome social e outras posições sociais importantes, não somos bem informados no tocante a suas histórias de vida e dilemas. Marina tem que lidar com tantos estigmas sociais ao longo do filme, que é angustiante assisti-lo, mas não por ser muito dramático, é porque nós, pessoas cis, nunca seremos capazes de sentir com precisão o que as pessoas trans sentem e experienciam.

Sebastián Lelio emprega certas simbologias que representam o estado interior de Marina

Um investigador da polícia, um médico e a família de Orlando suspeitam da maneira pela qual Orlando morreu. Eles não respeitam a dor da garçonete e a família até a proíbe de comparecer ao funeral. Uma policial, chefe da Unidade de Ofensas Sexuais, suspeita que as contusões de Orlando, depois de seu acidente, sejam na verdade resultado de agressão. Nesse caso, Marina pode ser acusada ou vítima, levando em conta a epidemia de violência contra pessoas trans e o estigma de que as mulheres trans mantêm a violência masculina padrão internalizada. Ela tem que passar por um momento humilhante quando  obrigada a posar nua em uma delegacia de polícia. Através do olhar dessas instituições sociais, Marina é um corpo abjeto. De acordo com construções socioculturais, as noções de sexualidade e gênero não são apenas sugeridas biologicamente. Como afirma Judith Butler, há corpos que adquirem sentido, que se materializam como sujeitos discursivos e obtêm legitimidade, e outros que são invisíveis. Transgêneros ainda são objetos sociais invisíveis. Quando a ex-mulher de Orlando conhece Marina pela primeira vez, ela diz que quando ela olha para a mulher trans, ela enxerga uma quimera. É importante ver como Marina responde a tudo isso. A câmera continua se aproximando para permitir uma inspeção profunda de todos os detalhes de suas expressões. Nossa protagonista parece habituada a passar por esse tipo de hostilidade humana. No entanto, ela é paciente e corajosa o suficiente para lidar com tudo isso sozinha, descarregando a sua raiva em um saco de pancadas. 

Uma das cenas mais emblemáticas de 'Una Mujer Fantástica'. O que define Marina como mulher? É a sua genitália? 

Marina Vidal não desiste de seus sonhos, apesar de seu luto e do preconceito dos outros. Ela aspira a se tornar uma soprano lírica. Seu professor é uma das poucas pessoas no filme que se mostra solidário à protagonista. Há uma performance magnífica no final do filme que me lembrou a  de Marion Cotillard como Édith Piaf em La Vie en Rose (2007). Ambas cantaram sobre a dor de perder aqueles que amavam. O que é tão fantástico em Marina Vidal é que muitas trans poderão se conectar com a sua história. Em uma cena, Vidal pisa no carro do filho de Orlando depois que sua família exigiu que "o monstro", "o homem estúpido" fosse embora. Isso representa como ela tem o poder de lutar contra a demonização da sociedade sobre pessoas como ela. Podemos  estar do lado de Marina ou daqueles que representam a sociedade no filme, cabe-nos a reflexão. O que é tão fantástico sobre a atriz Daniela Vega? Una Mujer Fantástica ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar deste ano. Este prêmio é uma marca na história das  transgêneros. Vega recentemente defendeu uma lei de identidade de gênero no Chile que legalmente permitiria que pessoas trans mudassem seus nomes em documentos oficiais. Daniela teve uma reunião com a ex-presidente de seu país, a feminista Michelle Bachelet, na qual os direitos fundamentais das pessoas trans foram discutidos. A representatividade é importante, e a voz ativa de pessoas trans é algo que esperamos ver com mais frequência. Obrigada, Daniela Vega!

O texto foi editado originalmente em inglês e pode ser encontrado em minha conta no Medium:

https://medium.com/@larissa1/una-mujer-fant%C3%A1stica-when-trans-people-speak-for-themselves-c276fd982f52

Referências :

DRY, Jude. (2018,June 3).‘A Fantastic Woman’ Historic Oscar Win Reignites Gender Identity Bill in Chile. Retrieved from:

MODESTO, Edith. (2018,June 3).Transgenderism: a complex challenge. Retrieved from:

SINCLAIR, Harriet.(2018, June 3) .World Health Organisation to consider dropping claim that transgender people are mentally ill. Retrieved from:




domingo, 27 de maio de 2018

Crítica: Visages,Villages (2017)



Considerada a mãe da Nouvelle Vague, movimento cinematográfico do século XX que revolucionou o modo de se fazer cinema, Agnès Varda permanece como uma das cineastas veteranas mais ativas dos tempos atuais. Sua relação com o cinema se dá de forma humanizada, concerne à les gens com histórias simples e esbeltas que o seu olhar subjetivo capta. A natureza exerce uma afeição particular na belga de 89 anos. Em suas obras antigas, é possível notar uma relação entre os personagens e paisagens naturais como a praia em La Pointe Courte (1955) e em Les Plages D'Agnès (2008); os campos em Les glaneurs et la glaneuse (2000) , etc. Varda uma vez declarou o seguinte em uma entrevista concedida ao The Guardian na época de lançamento de Les Plages D'Agnès  :          
 '' Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens. Se me abrissem, encontrariam praias.'' 
Pela primeira vez em uma co-parceria com outro diretor francês, JR, a dupla produz um filme documentário que simboliza de forma sútil e necessária a grandiosidade de vidas consideradas pequenas no contexto capitalista selvagem. Visages, Villages une a beleza da simplicidade com paisagens esplêndidas em pequenas cidades ao redor da França. Assim como Agnès, JR possui um enorme interesse em capturar o que há de mais natural e belo em uma pessoa. O âmago de seus trabalhos encontra-se nas ruas. No entanto, JR é um pioneiro, com mais experiência como grafiteiro e evoluiu sua arte para colagens gigantes preto e branco em muros. Enquanto Varda ,com sua bagagem cinematográfica de mais de seis décadas, arrisca em eventualidades para conduzir o longa. Seu despojamento nunca é falho, pelo contrário, Visages, Villages ou Lugares, Olhares em português, flui de forma que suas vinhetas por si só representam momentos únicos, de solidariedade e espontaneidade que necessitamos no nosso cotidiano.


 Agnès Varda e JR durante as filmagens de Lugares, Olhares


A dupla mescla suas habilidades exemplares e criam representações emocionantes nas vidas de uma garçonete, de uma mineira aposentada, de um grupo de mulheres que exercem funções desafiadoras, mas que são vistas apenas como esposas por conta do sexismo. Enfim, há gente bastante interessante e que comumente não ouvimos suas histórias, poi,s o tipo de cinema que nos habitamos, transmite aquelas que são fabricadas e que muitas vezes excluem vozes de quem faz a diferença na sua realidade. As diferentes reações dessas pessoas quando se deparam com o resultado final das enormes colagens passam a importante mensagem de que não somos acostumados a perceber nossa grandeza como seres humanos. Agnès é uma daquelas pessoas que nos ensinam como a arte pode ressignificar aquilo que somos. Vejamos por exemplo quando ela se refere ao seu problema de visão. Acompanhamos a cineasta em procedimentos delicados que são referenciados por ela de forma simbólica, como quando ela os comparam ao filme surrealista de Buñuel, Um Cão Andaluz ou quando um grupo de jovens reproduzem um teste de visão com letras grandes. A forma como retrata um momento complicado em sua vida, que põe em risco seu instrumento de trabalho mais precioso, demonstra que podemos lidar com nossas dificuldades se contamos com a arte, com a solidariedade ao próximo, sem nos limitarmos ao que nos aflige e que por ventura, faz a gente se sentir menor.
Um dos detalhes que mais me fascinaram no longa foi a apreciação que Varda mantém por seu amigo de longa data — termo empregado em respeito à ilustre diretora  —  Jean-Luc Godard. Ela desvelou a obscuridade por trás dos óculos escuros indispensáveis ao diretor através de seu curta Les Fiancés du Pont Mac Donald em 1961. JR a relembra muito Godard por conta dessa relutância em retirar os óculos. No entanto, me decepcionei quando no final do documentário, a cineasta pega um trem a fim de reencontrar seu colega de Nouvelle Vague na Suíça mas ele não aparece, deixando apenas uma mensagem enigmática na porta de sua casa que remete ao passado de Varda com seu falecido esposo e renomado diretor, Jacques Demy (Les Parapluies de Cherbourg). Outras memórias da belga permeiam o delicioso longa e dão vida a lugares inusitados. Uma imagem antiga de seu amigo fotografo Guy Bourdin sentado na praia de Normandia, oferece um novo sentido a um bunker nazista abandonado durante a Segunda Guerra. 





Minha reprodução preferida por JR.



Visages, Villages concorreu como melhor documentário na edição do Oscar deste ano. Uma indicação importante pois as mulheres ainda representam um número pequeno no mundo do cinema, especialmente as diretoras, em relação aos homens. Agnès Varda, apesar da idade, transmite uma vivacidade e sagacidade que se contrastam com o aspecto cético de colegas cineastas, como Godard. Ela é uma preciosidade no cinema atual, e aguardo ansiosamente sua próxima obra que assim como esta e tantas outras, nos fazem sonhar com um dia melhor nas nossas vidas e na do próximo. 









domingo, 1 de abril de 2018

Crítica: Eric Clapton: A Life in 12 Bars (2017)



Clapton is God. Se você for um apreciador do rock clássico, ou fã da série That '70s Show, reconhece o culto criado encima da imagem do músico inglês Eric Clapton. Décadas após imortalizar seu legado no blues, a sua vida pessoal e sua relação com música mostram-se interligadas no documentário realizado por Lili Fini Zanuck,  A Life in 12 Bars. Narrado por um Eric sossegado e com um estilo de vida oposto ao que teve por anos, o documentário mostra que por trás do gênio íntimo da guitarra, via-se um homem solitário, desapegado e que recorria a felicidades baratas que lhe custaram caro. 
Desde a sua infância, Eric conectou-se a música como forma de refúgio, de aliviar a dor. Sua mãe lhe abandonou cedo e o deixou sob os cuidados dos avós. Quando retorna anos mais tarde, ela não assume a criança, abandonando o garoto mais uma vez. Enquanto isso, ele ouvia um programa de rádio da BBC, em que entre diversos de tipos de música, o Blues o tocava. Não era desejo de Clapton ser chamado de deus, e sim que a música lhe garantisse um prazer longe da dor de não desejar mais viver, fruto de seu abandono materno. Temos acesso a gravações caseiras da época e um dos bônus da obra é a raridade de vídeos envolvendo seu auge artístico. É um deleite para os fãs. 
Ainda jovem, na década de 60, o amante do blues junta-se à banda The Yardbirds. Os Beatles estavam despontando, mas apesar de se impressionar com George Harrison, que mais tarde formaria uma parceria conturbada, Eric se incomodava com o status de banda pop que eles tinham. Um dos motivos que propulsionou tal status era o delírio das fãs. Quando o grupo lança o single For Your Love, claramente inspirado pelos garotos de Liverpool, os Yardbirds  tornaram-se pop e assim, Eric decide se desintegrar da banda. Na mesma época ele participaria de mais três grupos de blues e se desligaria. Algo maior estava por vir? Alguns creditam sua contribuição para o Cream como o melhor de sua carreira. É ao lado de Jack Bruce nos vocais e baixo e Ginger Baker na pesada bateria que Eric desenvolve melhor suas técnicas como guitarrista. No entanto, a velha disputa de ego entre integrantes da mesma banda leva ao seu fim. Antes de se juntar a esta que seria a sua melhor parceria, Clapton, sem grana no bolso, muda-se para o apartamento de John Mayall, líder do grupo Bluesbreakers. É lá que Eric disseca seus melhores cantores de blues como Robert Johnson, e juntos gravam um álbum, Blues breakers with Eric Clapton, um dos meus preferidos, especialmente a faixa Little Girl.  

Cream: da esquerda para a direita: Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce

A amizade entre Eric Clapton e o Beatle George se fortaleceu quando este co-escreveu a faixa Badge, pro último disco do Cream, enquanto aquele retribuiu com a belíssima While My Guitar Gentle Weeps.  Eric ainda participaria do primeiro álbum solo de George, All Things Must Pass.  Porém, a medida que se aproximava de Harrison, desenvolvia uma obsessão por sua esposa, a belissíma modelo Pattie Boyd. Clapton colecionava recortes de revista com suas fotos além de lhe enviar cartas românticas. Boyd narra no documentário como foi a sua relação com o músico. Embora fiel a Harrison inicialmente, Boyd confessa que uma vida ao lado de Eric parecia ser mais excitante, uma vez que o seu marido era frio. A rejeição por parte de Pattie remete a de sua mãe. Além disso, seu grande amigo e também considerado um deus, Jimi Hendrix faleceria no mesmo período. Suasgrande companheira tornou-se então, a heroína, e o seu vício o deixou anos recluso. A partir de imagens desse período é possível notar o quão sozinho e abatido Eric permaneceu por anos. A imagem de ídolo eletrizante dá espaço a de um homem que não alcançava o brilho de realizações pessoais. Quando decide retornar ao estúdio, grava em 1970, Layla and Other Assorted Love Songs em Miami ao lado da banda Derek and The Dominos. O single Layla se tornou o seu mais famoso e na obra cinematográfica Eric revela que tanto o sucesso quanto as outras faixas são inteiramente dedicadas à Boyd, a mulher mais desejável que conheceu, segundo suas próprias palavras. De volta aos palcos, Eric substituí a heroína por uma droga que considera ainda pior, o álcool. Algumas tapes de shows da época  mostra pessoas jogando coisas nele e seus discursos visivelmente influenciados pelo efeito do álcool. Abro parenteses para destacar quando Eric se deu conta de que a bebida o fazia perder controle do que dizia e do que realmente acreditava. ''Eu estava me tornando não apenas chauvinista, mas também fascista.'' ele comenta sobre o seus dizeres racistas. Uma contradição por parte de um artista que tanto se inspirou bastante em negros quanto trouxe ao mainstream o gênero musical canalizado por eles. Seu arrependimento é compreensível, é possível denotar honestidade na fala do velho e fatigado por uma condição de pele, no entanto outras de suas atitudes são apontadas ao longo do documentário e merecem também destaque. 
Quando o casamento de Pattie e George termina após traições  e por conta do vício em cocaína deste, Pattie e Eric encontrariam-se e se casariam anos depois, em 1979. O relacionamento foi bastante conturbado, sendo possível notar a desgaste na aparência de ambos. O abuso de álcool  de Eric era insuportável para Boyd, como também suas traições, em particular com a italiana Lory Del Santo, cujo affair resultou no seu filho Conor. O mesmo morreria em 1991, quando caiu da janela do 53° andar do apartamento do casal. O trágico momento resultaria em uma reviravolta em sua vida. Eric funda o centro de reabilitação para alcoólatras e viciados em drogas, Crossroads Centre Antigua. Além de ter composto a considerada sua mais bonita canção, Tears in Heaven.   


 Pattie Boyd e George Harrison


Eric Clapton e Pattie Boyd

Eric Clapton e seu falecido filho Conor


Décadas após a sua grande perda, Eric sana a sua dor com algo mais próximo da felicidade do que substâncias de efeito efêmero. Torna-se pai e marido mais uma vez. Porém, sua vida ainda encontra-se marcada por turbulências. Sua grande habilidade como guitarrista encontra-se ameaçada por conta de sua eczema presente no corpo inteiro além de enfrentar uma neuropatia que compromete seu sistema nervoso. Apesar de sua condição, o artista de 72 anos revelou recentemente à revista Rolling Stone que está trabalhando em um novo disco, que inclui covers de JJ Cale. 
A Life in 12 Bars traz o que os fãs do Eric já sabiam, com gravações e  relatos pessoais da carreira de um dos maiores guitarristas do seu tempo. B.B King, Roger Waters e outros grandes artistas  já demonstraram sua grande admiração às suas qualidades musicais — é impossível deixar de comentar a primeira impressão do Bob Dylan ao vê-lo tocar com o Cream pela TV. Eric Clapton teve seus altos e baixos durante sua carreira, encontrou na música a fuga para suas angústias e emocionou e emociona muitos através de seu incomparável blues de 12 compassos (12 bars).

Nesta apresentação de 2016 é possível notar que Eric está enfermo

terça-feira, 27 de março de 2018

Crítica: Blue Valentine (2010)




Michelle Williams é uma das atrizes mais premiadas do cinema atual. Carregando mais de 90 indicações nas costas, ela tem interpretado personagens femininas que convivem com perdas e como lidam com isso. Manchester by the Sea (2016) e My Week with Marilyn (2011) são trabalhos mais recentes que mostram personagens distintas porém com a alma desolada por perdas significativas em suas vidas. A coincidência não é a toa. No início de 2008, o ator Heath Ledger, de quem havia recentemente se divorciado e com quem tem uma filha, faleceu. Ledger e Williams se conheceram durantes as gravações de Brokeback Mountain em 2004. Neste filme, Michelle traçou seu caminho na vida pessoal e fílmica, o de encarnar protagonistas com emoções verdadeiras para si. Seu papel aqui é o de aceitar a perda de quem ama pra alguém do mesmo sexo que seu companheiro. Algum tempo após a morte de Ledger, Michelle encorpora mais uma mulher que enfrenta diferentes perdas. Blue Valentine, apesar do seu título remeter ao romântico álbum do cantor de blues Tom Waits, é um longa feito para quem esperar situações mais próximas do real de como os relacionamentos funcionam. Esqueça o romântico idealizado por Meg Ryan na década de 90 e por comédias românticas da década de 2000, Blue Valentine é lindo ao mesmo tempo que dói assisti-lo, pois é através de duras doses de realidade que se formam as reais histórias de amor.
Dirigido por Derek Cianfrance, Blue Valentine protagoniza Michelle Williams e Ryan Gosling como dois jovens que se encontram em meio a diversidades em suas vidas e que acreditam na união como forma de trespassá-las. A Cindy de Williams ao mesmo tempo que se defronta com dilemas familiares e no relacionamento, almeja seguir uma carreira a partir de seu curso de medicina. Quando descobre que está grávida, seu companheiro se torna abusivo, não aceitando que Cindy queira lidar com o rumo de sua vida da maneira que entende. Enquanto isso, o Dean de Gosling trabalha como carregador de móveis em mudanças e tem pequenos sonhos, como encontrar alguém especial. Dean será capaz de realizá-lo quando conhece Cindy em um asilo, quando ela visitava a sua vó. Relutante em responder às tentativas de Dean, os dois se reencontram algum tempo depois, por acaso, em um ônibus, como muitos encontros se dão.




A promessa que Dean faz em assumir uma família com Cindy partiu de alguém em busca por alguém especial, enquanto o consentimento de Cindy parte de uma mulher que não suportaria o fardo de abortar e encontra no seu novo companheiro, o conforto e a segurança que procuramos em um relacionamento. O filme se dá de forma não-linear, contrapondo os momentos iniciais de uma paixão a 5 anos depois, quando a vida delineia outros contornos para o que uma vez pareceu ser o mais próximo da felicidade. O cuidado que o casal uma vez teve um com o outro é substituído por uma frieza no toque, na fala e suas aparências desgastas não são difíceis de serem notadas. Acredito que Michelle tenha posto muito de sua experiência pessoal na carga emocional da sua personagem. Além disso, tanto ela quanto Ryan trouxeram o máximo de verossimilhança que puderam a partir da encenação por trás das telas, simulando uma vida em família sem tantas condições ao lado também da atriz que interpreta a sua filha no filme. O diretor até sugeriu que Ryan tentasse dormir com Michelle a fim de que uma possível briga entre eles pudesse ajudar na tensão constante entre os seus personagens.
A medida que as lembranças do passado se tornam mais intensas no tocante à afinidade do casal, acompanhamos o seu distanciamento no momento atual do casamento. Ambos não conseguiram ir além do que se almeja enquanto somos jovens e os motivos do desgaste entre eles não nos são claros, porém, é inevitável não descontar as não realizações pessoais naqueles que nos acompanham nas tentativas. Dean é o que domina a ternura e aspecto romântico, ao passo que Cindy se depara com as questões práticas do cotidiano, não reservando tempo para alguma faísca de paixão que já se faz presente algum dia.
Blue Valentine nos ensina uma dura lição sobre nós que se desatam aos poucos e que nada os ligarão novamente. Quando nosso suspiro de felicidade se torna um grito de desespero. Dean e Cindy tem a última chance de se reencontrarem em uma noite romântica, mas ela não o responde afetivamente. Sua resistência em se entregar ao seu companheiro vai de encontro à antiga promessa de amor no pior e no melhor. Não há mais nada em Cindy que a faça reviver a promessa. A incerteza do que exatamente os levaram a chegar a um ponto final é de fácil identificação entre aqueles que se entregam um ao outro e permite que as desavenças prevaleçam ao fácil diálogo e entendimento que são proporcionados inicialmente.
Por fim, é difícil terminar o filme de forma que ele não te sufoque no seu trato real de como as coisas são quando um sonho se põe ao fim ao lado de um pôr do sol. Tal simbolismo que despede dois amantes mostra o quanto o amor pode ser tanto doloroso quanto bonito.



domingo, 4 de março de 2018

Crítica: Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (2017)



 A linha tênue entre a vingança e a justiça nos enternece em Três Anúncios Para um Crime.
O diretor Martin McDonagh entrega um trabalho que dosa humor negro com um forte drama, embora por vezes de forma falha, mas que deixa o espectador cheio de indagações sobre como lidamos com o outro em momentos inesperados, que transbordam sentimentos humanamente difíceis de encarar. 
O filme protagoniza uma mãe no maior conflito que lhe possa ocorrer, a perda de um filho. Neste caso, Frances McDormand interpreta Mildred Hayes,  uma mãe solteira, com o corpo aviltado fruto de uma vida de tensão e culpa e que busca respostas concretas do assassino de sua filha. Seu filho interpretado pelo ator em ascensão Lucas Hedges, a acompanha  nessa difícil odisseia. Sua família habita a pacata cidade de Ebbing, e no início do filme somos apresentados a três outdoors em desuso. Mildred os aluga e respectivamente em cada um são grafados: Estuprada enquanto morria; E ainda sem presos?; Como isso, chefe Willoughby?. As mensagens estão em letras garrafais pretas sobre fundo vermelho de forma a chamar a atenção de quem os visse. Porém, o propósito maior de Hayes era causar um alarde sobre a negligência na investigação do caso de sua filha Angela, o que acarretou na intervenção da polícia local. O chefe de polícia Bill Willoughby, a quem a mensagem se dirige diretamente, possui temperamento forte equivalente ao de Mildred, o que torna seu embate inteligente e os personagens altamente interessantes. E os papéis caíram como luva tanto para Woody Harrelson quanto para Frances, que haviam interpretado personagens de dimensões semelhantes anteriormente.


Frances McDormand em atuação marcante  em  Três Anúncios Para um Crime


Woody Harrelson e Frances McDormand compartilham o mesmo 
temperamento na suas atuações em Três Anúncios Para um Crime

No entanto, quem se incomoda furiosamente com o ato de Mildred é o típico policial tirano Jason Dixon, numa igualmente ótima performance do ator Sam Rockwell. Dixon faz o que pode para atacar Mildred, unicamente por acreditar que sua ação é um desacato a sua autoridade. Ao se confrontarem, é impossível conter o riso   quando ela o chama de fuckhead. O que torna a personagem de Frances marcante é a sua audácia diante de uma jornada excruciante em que poucos estão do seu lado. Os ataques também partem de seu ex-marido, que namora uma garota de 19 anos, motivo de várias piadas durante o filme. Apesar de tal aspecto perpetuar um estereótipo feminino em um filme que retrata um tema delicado e de relevante debate, o longa não se perde. Outro estereótipo utilizado para fomentar o humor negro do filme voltou-se ao ator Peter Dinklage, famoso por atuar no seriado da HBO, Game of Thrones. Seu personagem mostra-se ao dispor de Mildred, inclusive em uma cena emblemática que tem sido discutida sobre sua veemência. Antes de comentá-la, sabe-se que o ator tem nanismo, uma condição historicamente vista como bizarra e marginalizada. Novamente, por tratar-se de um filme que traz um debate importantíssimo sobre o estupro, ver outra minoria ridicularizada foi no mínimo decepcionante.

Sam Rockwell e Frances em Três Anúncios Para um Crime


Willoughby sofre de câncer no pâncreas e por conta disso, sendo assim, acredita-se que a ação de Mildred seja um desrespeito a sua condição. Apesar disso, ele mostra empatia à sua persistência em reabrir o caso. Um pequeno frame mostra o último contato entre Mildred e Angela. O conflito entre as duas lembra o de outro concorrente ao Oscar de melhor filme, Lady Bird. No entanto, enquanto neste o conflito se resolve de maneira madura, em  Três Anúncios Para um Crime não houve tempo para tal uma vez que Angela resolve sair de casa a pé e em um lapso de raiva sua mãe diz que ela seria estuprada se o fizesse. A partir disso, temos uma dimensão da enorme culpa que ela carrega e de seu destemor em enfrentar aqueles que são contra seu pronunciamento. O chefe de polícia eventualmente se suicida, deixando cartas para aqueles mais próximos, incluindo Mildred. O seu tom sarcástico não diminui a carga dramática do filme. Dixon, por conta do acontecimento, culpa Mildred e toca fogo em seus outdoors. Ela, para se vingar e fazer justiça com as próprias mãos, decide tocar fogo na delegacia de polícia. Porém, o que ela não sabia é que Dixon encontrava-se lá, lendo uma carta que o chefe havia deixado falando sobre empatia e amor ao próximo. Dixon consegue escapar e traz junto consigo os arquivos da morte de Angela. A mudança repentina do personagem trouxe controversa após a estreia do filme. Isso porque não condizia com as suas atitudes racistas e homofóbicas e violentas até então. A mudança causou estranhamento, não que não pudesse ocorrer, mas poderia ter sido elaborada mais a frente.
E o que deixou vários espectadores mais em dúvida ainda sobre a qualidade do longa é o seu desfecho. Não descobrimos o assassino de Angela, chegamos quase lá, graças a Dixon, quando ele escuta uma conversa no bar de um estuprador que havia antes perturbado Mildred psicologicamente. Apesar da expectativa de um ponto final no caso, sabemos que na realidade há ainda muito descaso em relação à investigação sobre ocorrências de feminicídio. Só no Brasil, de acordo com o Mapa da Violência 2015, em 2013 foram registrados mais de 13 homicídios contra a mulher. 
O longa de McDonagh  está na corrida do Oscar em várias categorias, mas o que é importante destacar deste filme é que retrata um tema recentemente em pauta de investigação e penalidade no meio hollywoodiano. E para além disso, o estupro tem que ser retratado por diferentes pontos de vista e o longa o trata como crime insolúvel em uma pequena cidade conservadora, em que é comum que se propagem  ideias relacionadas à culpabilidade da mulher.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Crítica: À bout de souffle (1960)



Para os amantes de filmes franceses, Jean-Luc Godard é um nome recorrente por conta da relevância  de seu legado com a Nouvelle Vague. A fase áurea de seu cinema durante a década de 60 ainda é reverenciada por quem produz filmes e por quem os assiste. A sua inovação na forma de se fazer cinema, nas temáticas e no desenvolvimento dos personagens acompanharam a também  transgressão de outros colegas cineastas como Alain Resnais e Agnès Varda. Seu primeiro longa, lançado no início da década, traz elementos presentes em filmes noir estadunidense, mas é na utilização de uma tradição que se faz a ruptura e Godard foi exemplar em explorar novos caminhos no mundo cinematográfico. À bout de souffle, ou Acossado em português, dialoga com a juventude inconformada de sua época, e transpõe em diferentes nuances, esse sentimento de se deslocar de valores tradicionais. 
Michel Poiccard, interpretado pelo feio mais atraente do cinema francês, Jean-Paul Belmondo, é um criminoso que fuma mil cigarros e usa chapéus que cobrem sua face. Transmite suas convicções em uma conversa aberta conosco e é destemido diante da lei. Seu ar despojado no entanto, não esconde seu lado romântico e mesmo com a sua vida em risco, ele anseia por sua amada norte-americana, Patricia Franchini. A personagem de Jean Seberg representa as mulheres independentes que adotavam suas próprias identidades naquele tempo. O movimento contracultura foi responsável por fomentar a sensibilidade de se desprender de imposições e o casal Michel e Patricia retrata veemente as mudanças no comportamento e estilo instigadas por meios alternativos de enxergar a realidade ao seu redor. 

Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo representaram um casal moderno 
através das lentes de Godard em Acossado (1960)

Fugindo de Marselha em destino à Paris, Michel reencontra a aspirante à jornalista Patricia vendendo jornais New Yorke Herald Tribune nas ruas. O convite de Poiccard é tentador, dormirem juntos e fugirem para Itália. Porém, a protagonista mostra-se relutante em conceder aos seus anseios. A inquietude deste em perdurar conquistas amorosas e econômicas contrasta-se com a inquietude em busca de reconhecimento daquela. Boa parte do diálogo entre os dois acontece no pequeno apartamento de Patricia, e o cineasta trabalhou de forma sútil o tom moderno do romance entre os protagonistas. A espontaneidade na suas atuações foge à seriedade e moralismo  entre casais vistos em filmes hollywoodianos até então. Michel incessantemente pede para dormir com Patricia, enquanto ela o provoca com sua insegurança em relação ao quanto ele realmente quer estar com ela. Ambos revelam ter dormido com várias pessoas, e no caso de Patricia, tal atitude, assim como seu estilo beatnik   eram uma afronta à sociedade puritana da época.
O jazz de Martial Solal na trilha sonora, marca a fugacidade de Michel e acompanha os jump cuts acidentais da edição do filme. As conversas saltam de forma brusca como a batida do jazz e a proza Beat. Não se fala de um casal hipster, Patricia tem suas ressalvas a mulheres que usam minissaia, trata-se de um casal que transmitia o que havia de verossímil entre os que não se encaixavam na normatização de seus papéis sociais.

''Quero que as pessoas me deixem ser eu mesma'' diz Patricia no seu eterno
conflito em se afirmar diante dos outros.


Acossado daria sequência a outros filmes de Godard em que a mulher ganha contornos mais distantes daqueles determinantes e sexistas até então. Patricia foge à representação de dama submissa de filmes noir  e dá lugar a uma mulher que decide por si mesma. Se é amada ou não, se deseja engravidar ou não e eventualmente, se vai delatar Michel para a polícia ou não. Sua decisão revela sua desilusão com as promessas e aventuras de um amor em detrimento de seus próprios sonhos. Não há indiferença total de Patricia em relação a Michel. Seu último adeus simboliza um gesto de intimidade que a relembrará de seu amante. 
O primeiro longa de Godard demarca uma era de experimentação na sétima arte que abala estruturas formais propagadas pelo mundo Hollywoodiano. Sua era inovativa se perde em meio a ideologias políticas e afastamento de anseios de uma geração que cresceu e se identificava com o seu trabalho. Apesar disso, revisitar o seu cinema é mergulhar em um turbilhão de ideias e referências culturais revigorantes. 


Jean Seberg na última cena de Acossado (1960)

domingo, 28 de janeiro de 2018

Crítica: Lady Bird (2017)





Greta Gerwig está fazendo história no mundo cinematográfico. A atriz que ficou conhecida por atuar em filmes com a estética mumblecore (algo como improvisação na atuação) estreia como diretora em Lady Bird- A Hora de Voar e nessa semana, adentrou a lista de concorrentes a melhor direção no Oscar. Greta é a quinta mulher na história do cinema nomeada nessa categoria e temos muitos motivos para acreditar que ela merece a estatueta. Seu longa protagoniza uma jovem e rebelde Saoirse Ronan no papel de Lady Bird. Seus anseios e seus dilemas pessoais são familiares e Greta foge ao lugar-comum dos filmes juvenis de comédia e drama, humanizando igualmente os outros personagens. Lady Bird se chama na verdade Christine, porém ao sentir que sua liberdade é limitada ao lugar em que vive e à sua família, ela assume sua própria identidade com a escolha de um nome que se assemelhe a não ter amarras de ir aonde quiser. Situada em 2002, o seu  grande anseio é sair de sua cidade natal, Sacramento na Califórnia, e ir para uma universidade onde as coisas acontecem. Seu relacionamento com a sua mãe, Marion (Laurie Metcalf) é instável. Marion não está pronta para libertar sua filha debaixo de sua asa, e Lady Bird quer amadurecer as próprias . O conflito entre mãe e filha resulta em cenas tocantes e ainda assim Gerwig foi exemplar em dosar o tom cômico e dramático do filme. A personalidade explosiva de ambas é amainada por instantes que só quem tem um relacionamento conflituoso com a mãe entende. Se Truffaut filmou Os Incompreendidos e Linklater Boyhood para retratar a transição da maturidade para o público masculino, Gerwig registra uma narrativa que  é de ampla identificação para o mundo feminino.

Saoirse Ronan como Lady Bird e  Laurie Metcalf como Marion


Lady Bird frequenta uma escola católica ao lado de sua melhor amiga Julianne (Beanie Feldstein). As duas aproveitam o tempo livre para comer hóstias enquanto falam sobre masturbação e tentam fazer algum número no teatro da escola. É lá que Lady Bird se apaixona por Danny O'Neill (Lucas Hedges). Porém, Lady Bird logo se decepciona quando o flagra beijando outro rapaz. Leva algum tempo para que ela o compreenda e o perdoe, e assim acabam tornando-se amigos. Julianne também tem o seu dilema amoroso pois é apaixonada por um professor mais velho. Ela e Lady Bird têm o ombro uma da outra pra chorar as decepções da vida, porém, a amizade será para esta mais um desafio para lidar. A sua família passa por dificuldades financeiras por causa da desemprego do seu pai, além disso, ele tem lutado contra a depressão por muito tempo. Nossa protagonista não aceita a sua condição social diferente da garota popular de sua classe e ao tentar ser sua amiga mente sobre onde mora. No entanto,quando a garota descobre, as duas permanecem amigas e não há o clima de rivalidade entre meninas como é propagado em vários filmes sobre jovens. Gerwig traz temas delicados e os tratou de forma sútil, humanizada e era o que precisávamos. Para que a personagem feminina amadureça e desenvolva sua autonomia, precisamos vê-la de forma menos idealizada possível, nós mulheres necessitamos de retratos mais verossímeis. 

Beanie Feldstein como Julianne e Lady Bird


Lady Bird abre seu coração mais uma vez para o amor. Ao trabalhar numa cafeteira, conhece o jovem intelectual e enigmático, Kyle  (Timothée Chalamet). Ela finge ter o mesmo gosto pessoal que ele para conseguir qualquer tipo de conversa. Ao perder sua virgindade com ele, descobre que ele  havia mentido sobre também ser virgem. Para Kyle, isso não tem importância alguma, mas para Lady Bird, era mais uma decepção com a qual deveria aprender algo. Seus problemas em casa pioram quando sua mãe descobre que ela se inscreveu para universidades fora do estado da Califórnia. Ela agora tem 18 anos e sua maioridade ainda não é sinônimo de maturidade. Mesmo assim, ao ser aceita em uma universidade em Nova Iorque, Lady Bird não deixa que o voto de silêncio de sua mãe impeça seu voo. É uma das cenas mais tristes do longa quando esta deixa seu lar em busca de seus sonhos sem o adeus daquela. Ao se estabelecer na sua nova cidade, Lady Bird também estabelece uma nova identidade, agora ela atende pelo nome de Christine. Ela sente que para seguir em frente não  pode deixar feridas abertas. Uma carta e um telefonema entre ela e Marion são um emocionante pedido de desculpas sinceras e que só o amor poderia conduzir a algo tão complicado quando fugimos dos problemas. Lady Bird- A Hora de Voar é um tocante e humanizado retrato sobre sonhos, amizade, amor, sexualidade e família que nos permite aprender com nossos erros e atribuir nossa maturidade às nossas dolorosas tentativas de  voar com asas próprias. 


Saoirse Ronan e a indicada ao Oscar de melhor direção Greta Gerwig
 durante as gravações do filme