domingo, 31 de março de 2019

Crítica: Nico,1988 (2017)



Quando a alemã Christa Päffgen presenciou na sua infância os horrores advindos da Segunda Guerra Mundial, seu imaginário foi marcado pela morbidez e niilismo. Isso a perseguiria por longos anos e traçaria a sua definitiva identidade. A Christa que existe no imaginário de muitos que a conheceram pelo nome artístico de Nico, é apenas uma parte dela que não perdurou, mas que precisou existir para que a própria revelasse seus mais íntimos e obscuros anseios. É o lado mais cru e distante da idealização da era Velvet Underground e Chelsea Girl que a diretora italiana Susanna Nicchiarelli retrata no filme biográfico Nico,1988 (2017). A obra se passa nos dois últimos anos de vida da artista, entre 1986-1988, período em que Christa, que na época rejeitava o  nome que a tornou conhecida apesar de assiná-lo em seus trabalhos, estava em turnê,lançou seu último disco (Camera Obscura-1985) e tentou pela última vez, trazer para perto de si seu único herdeiro, Ari, filho que teve com o ator francês Alain Delon e o mesmo jamais reconheceu a paternidade. Representar Nico no seu último suspiro como artista não só revela a sua singularidade artística — singularidade que também é presente em tantas artistas de ontem e hoje e que ainda não é reconhecida— como também nos faz refletir sobre qual o legado deixado por uma mulher como Christa Päffgen. 

A atriz Trine Dyrholm moldou a sua própria "Christa" ao lado da diretora Nicchiarelli. 
Fonte: Rolling Stone
Christa Päffgen ou Nico, durante a década de 80. Fonte: Vulture


O primeiro contato que temos com Christa duas décadas após sua parceria com Andy Warhol e o Velvet Undergroud é de uma mulher que tenta fugir de seu passado e se mostra insatisfeita com o presente. A mesma sensação é obtida ao lermos o mais atualizado capítulo da vida de outra alemã, Christiane F. Na biografia Eu, Christiane F., a Vida Apesar de Tudo, Christiane que teve sua imagem jovem idealizada, traz uma série de reflexões sobre os anos posteriores da sua fama de forma cética. Tanto ela quanto Christa eram usuárias de heroína (não sei afirmar se Christiane que  está viva, ainda usa) e a droga deixaria profundas marcas em suas vidas. Anos antes de se juntar à turma de Andy Warhol, Christa modelou,fez pontas em filmes como La Dolce Vita, de Federico Fellini, e já apostava na carreira solo como cantora. Sua presença entre os caras do Velvet, era incomodo para Lou Reed. Já outro rockstar da época, Jim Morrison (The Doors) primeiramente a assustaria ao se exibir nu, mas segundo as  palavras da artista, reproduzidas no filme, ele a encorajou a escrever suas próprias músicas. A alemã então, ao ser rejeitada por seus anseios artísticos em seu primeiro álbum (Chelsea Girl), decide fomentar a sua autonomia e lança em 1969, o fúnebre álbum, The Marble Index. Dessa forma, sua objeção em ser reconhecida como Nico, a ícone, deve-se àqueles que um dia não levaram a sério o seu talento, que seria explorado, mas não reconhecido. É importante ressaltar que para compreender esta biografia cinematográfica é preciso estar ciente de que mulheres como Nico, que fogem a ideais femininos, dificilmente chegam lá. Nico rejeitava a ideia de envelhecer e colocar tudo no seu devido lugar para manter uma aparência jovem e desejável. Seus cabelos desgrenhados e seu estilo de vida junkie revelam o ar transgressor ao qual Trine foi fiel. A personagem também transmite  a arrogância e a atitude foda-se de Nico, que se refere aos músicos inexperientes de sua banda como ralé e que não se incomoda em pedir heroína em Praga, lugar que estava sob regime ditatorial na década de 80. 



Image result for nico 1988
A transgressão na atitude e o temperamento explosivo de Nico acompanham a cantora pelos caminhos 
em que sua banda percorre pela Europa. 


Além da fidelidade à Nico beirando aos 50 anos, outro ponto alto do filme é a perfeita ambientação da época. A trilha post-punk e a atmosfera sombria casam ouça o ótimo trabalho do gênero feito por Nico em 1981, Drama of Exile, além do contexto político da Europa em que a música abria portas para experimentação e inovação enquanto a Guerra Fria já não fazia mais sentido. O longa ainda traz a complexa relação que Nico mantinha com seu filho suicida Ari. Ambos sabiam que o vício os aprisionavam numa bolha niilista e que a afeição que tinham um pelo outro era o que oferecia algum sentido a profunda insatisfação com a vida que percorria o seu íntimo.
Susanna Nicchiarelli demonstra com seu filme que a insatisfação da mulher que outrora foi musa de Andy Warhol nunca seria resolvida porque mulheres como Nico nunca terão suas insatisfações e anseios  compreendidos. Talvez o legado que ela tenha deixado seja a sua enigmática e poderosa força musical, ou sua transgressão no estilo de vida e atitude. Independentemente do que cada espectador concluir, Nico permanece de forma distinta no imaginário de muitos. Para alguns, a estranha, a incompreensível. Já no imaginário de outros, há esperança de que a autodestruição de Christa Päffgen  seja entendida como uma resposta às imposições que perseguem as mulheres, inspirando outras a buscarem sua forma particular de fuga. 







Trine Dyrholm como Christa e Sandor Funtek como Ari em Nico,1988.



Devido ao seu estilo boêmio durante a década de 60, Nico teve dificuldades em criar Ari e a relação entre os dois ora era afetuosa ora conflituosa uma vez que ela o ofereceu seu primeiro pico.



Eu junto ao poster do filme no Cine Vitória em Aracaju.

 Feliz com um LP ao vivo da Nico na Freedom Rock Tattoo


Segue abaixo meu post em inglês contando mais sobre a vida da Nico a partir do documentário "Nico-Icon"  para o Cine Suffragette:

https://medium.com/cinesuffragette/nico-icon-behind-the-obscurity-of-a-star-58e3eb1b43c0



sábado, 12 de janeiro de 2019

Resenha: Girl in a Band, Kim Gordon (2015)



"What is it like to be a girl in a band?
I don't quite understand
That's so quaint to hear
I feel so faint my dear"
Como é ser uma garota em uma banda?
Eu não entendo muito bem
Isso é tão estranho de se ouvir
Eu me sinto tão exausta, meu querido"
Letra de Sacred Trickster do Sonic Youth, presente no álbum The Eternal (2009)

Kim Althea Gordon, mais conhecida como Kim Gordon, tem sido uma das mulheres mais influentes na música e nas artes visuais. Ela foi por mais de três décadas, a baixista da banda noise punk, Sonic Youth. Por ter sido a única mulher* em um grupo renomado por sua experimentação e inovação musical, ela atraiu muita atenção dos fãs e da mídia, mas sua aura branda e misteriosa jamais tinha revelado quem era a mulher por trás dos palcos. Por essa razão e outras, Kim lançou a sua  amarga autobiografia. Amarga não só porque ela estava exausta de ser vista apenas como a  garota foda da banda mais cool que você pode ouvir, mas também porque essa identidade fazia parte de algo muito maior: ser uma artista mulher lhe possibilitou refletir e buscar além do que é reservado para as mulheres. Ao iniciar a leitura de Garota na Banda, título em português, percebe-se que Gordon transforma suas palavras em facas afiadas. Falar sobre a condição da mulher em um casamento parece algo penoso para muitas de nós, já que internalizamos esse tipo de instituição como sinônimo de felicidade e plenitude feminina. No entanto, ela rompe com a imagem mítica que se construiu ao longo dos anos de seu casamento com o guitarrista, vocalista e ao lado dela, co-fundador do Sonic Youth, Thurston Moore.  Seu tom agressivo é de uma mágoa não resolvida, e sua mágoa não cessa nem no fim do livro porque ela se estende a uma problemática muito maior em que a infidelidade masculina é só uma pequena parte disso . Muitos criticaram negativamente a biografia por causa da sua insistência em falar sobre a traição de Thurston. Embora isso se faça presente, precisamos nos sensibilizar com a sua dor. Sua libertação não veio nem com o casamento e nem com a separação. Kim Gordon deixa bem claro desde os primeiros capítulos que cresceu em ambientes vívidos, deslocando-se para diversos lugares que possibilitaram sua autonomia e crescimento artístico. Há também a sua convivência com um irmão problemático, que a fazia se sentir pequena e a silenciava. Sendo assim, seu contato com as artes foi a sua verdadeira libertação. A sua voz tensa e ao mesmo tempo terna, revelam uma mulher sensível ao mundo ao seu redor, assim como essa mesma sensibilidade a despertou para o que era certo e errado, e ela pode, como poucas mulheres, gritar o que estava errado e ser ouvida pois  foi uma garota da banda.


Kim Gordon e Thurston Moore tocando com Sonic Youth no CBGB em Nova Iorque, em 1983

Kim e Thurston de costas um para o outro no último show do Sonic Youth, no extinto festival SWU, em São Paulo. Kim descreve a despedida da banda como se ninguém pudesse ver o quanto vulnerável ela estava aquele dia. 

A multi-artista se encontrou em meio aos outsiders de Nova Iorque. Cada escritor que decide narrar a cidade, tem um lugar  em que finca os pés e o chama de seu. No caso de Kim, ela trazia consigo pedaços de diferentes lugares e levou um tempo para encontrar a sua Nova Iorque. Sonic Youth pode ter tocado por todo o mundo, mas eles têm uma história marcante na cidade que nunca dorme e ao delinear os primeiros passos da banda, Kim faz de tal forma que acabamos entendendo porque a banda durou tanto tempo e foi tão sólida em diversos aspectos. Há uma nuance da autora que é importante ressaltar: sua observação crítica de outras bandas a fez modelar a sua própria voz e próprio estilo como artista. É por isso que ela menciona algumas vezes sua admiração pelo movimento riot grrrl e em especial, por Kathleen Hanna, ex-vocalista do Bikini Kill, uma vez que as riot grrrls se recusavam a ceder para o mainstream. A tranquilidade dos outros membros do Sonic só era rompida quando Lee e Kim discordavam, ou quando Thurston estava de mau-humor, mas a criatividade sempre se fez estável. Kim também discorre sobre o árduo início do grupo. Os problemas com a captação de som, com a troca de bateristas  e do compartilhamento de vans com outras bandas problemáticas, como Swans, não os desestimularam, pelo contrário, parecia que quanto mais as coisas iam  dar errado, elas resultariam nos maiores êxitos do Sonic. Mergulhar nesse vasto mundo underground através de uma perspectiva feminina é o ponto alto do livro. Antes do Sonic Youth, Kim arriscou em grupos femininos avant-garde e se jogou em trabalhos de intervenção artística e como escritora para revistas. Sua luta por pequenos espaços é de vital inspiração para meninas jovens que vão adentrar a vida adulta e se sentem perdidas. Quando Kim narra como conquistou seu lugar na sociedade, ela não o faz de forma arrogante, sua mensagem é a de que a gente nunca sabe quem realmente é aos 20, e nem aos 30, mas se arriscar e acreditar em si mesma e naquilo que faz fala muito mais pela gente do que qualquer definição que nos rotule. 


Kim Gordon por Felipe Orrego nos anos 70

EP de estreia do Sonic Youth lançado em 1981. Kim alega que a banda não tinha muitos recursos para a gravação e que tudo durou mais ou menos dois dias. Detalhe que Steve Shelley ainda não era o baterista da banda.


Como muitos fãs assíduos do Sonic Youth, estávamos ansiosos para chegar aos capítulos em que Kim discorre sobre o Goo e Dirty, álbuns certamente impecáveis e que marcam o auge da banda. Era início dos anos 90 e as sementes do grunge e do riot grrrl  estavam prontas para germinarem como a voz da geração. Nirvana fez uma tour com Sonic Youth pela Europa registrada  no documentário que mudou a minha vida, 1991: The Year Punk Broke. Outras bandas que despontariam depois ao lado do Nirvana, como Babes in Toyland aparecem na obra, porém, as figuras que mais chamam atenção são Kurt Cobain e sua futura esposa Courtney Love. Na época do documentário, Courtney tinha um caso secreto com Billy Corgan do Smashing Pumpkins. Kim Gordon é aquele tipo de pessoa que internaliza muita coisa pra si mesma, e mesmo quando ela resolve extravasar, há uma sensação de que ainda há muito guardado, e que nunca seremos verdadeiramente íntimos da sua história. Ela apresenta os motivos os quais não gosta de Billy e Courtney. Para ela, Smashing nunca foi punk rock e Courtney era o desastre da vida de Kurt. Suas opiniões ácidas sobre os ídolos que admiro não me incomodaram tanto, afinal de contas, nós também criticamos  os artistas que não curtimos. Mas há algo vago, que não fica esclarecido quando ela resolve soltar o verbo. Kim escreve sua biografia como uma terapia, mas não como um diário. Sem dúvida, uma das  partes mais emocionantes do livro é quando ela fala sobre Kurt. Eles tinham uma relação fraternal, quase maternal e ela sempre percebeu seu desejo de aniquilação projetado nos palcos. No filme biográfico Last Days (2005) do excelente cineasta Gus Van Sant,  Kim aparece como uma executiva de uma gravadora e é a única personagem a interagir com o personagem inspirado em Kurt Cobain nos últimos dias de vida. A escolha tem seus motivos: Kim era inicialmente um grande ícone para Kurt e apesar dos dois serem estrelas do rock, uma rara e honesta amizade foi formada. "Kurt ainda me acompanha, dentro e fora de mim também, com sua música (p.225)". Os primeiros quatro anos da década de 90 foram agitados para a vida de Kim dentro e fora dos palcos, e os paralelos que ela traça, reforçam que ela foi muito mais do que uma garota na banda. Quando ela narra a corrida vida de mãe e rock star — Thurston foi descrito como um pai presente—  percebemos o quanto era difícil pois Kim tinha os projetos de arte, muitas pessoas para hospedar em casa e ainda tinha que educar Coco. 


Kurt e Kim em 1992 em Seattle após um show do Sonic Youth . Kim lembra dessa imagem perfeitamente. Kurt a havia pedido conselhos à ela sobre Frances  e Courtney. "Courtney acha que Frances gosta mais de mim do que dela (p.192)" disse ele.

Kim segurando Coco no aniversário de Frances Cobain. Foto: pinterest 

Ao relatar a primeira década dos anos 2000, derradeira da banda, Kim sente as coisas desmoronarem assim como o fatídico 11 de setembro de 2001. A família Moore Gordon tinha que se mudar para a Nova Inglaterra e Kim desconfiava que a decisão não agradava Thurston. Coco estava crescida e seguindo alguns passos dos pais  e Thurston cada vez mais distante como marido.  Sonic fez pontas nos seriados Gossip Girl e Gilmore Girls, mas o casal cool  agora frequentava terapia. Steve e Lee passavam mais tempo em Nova Iorque, no estúdio, enquanto Thurston se dedicava à sua pequena editora, Ecstatic Peace Library ao lado de sua então amante, que Kim preferiu não revelar, mas o nome dela é Eva Prinz e eles estão juntos até hoje. O grande último ato do Sonic Youth se deu em São Paulo, no SWU de 2011. Assisti ao show na época  e o revi ao ler a biografia. Nada mais doloroso do que notar que Kim estava disfarçando o mundo que desmoronou encima dela. Ela que canta a maior parte das músicas e olha sequer uma vez para Thurston. Gordon seguiu a sua vida com seus projetos em galerias de arte e o Body/Head,  grupo que criou ao lado do músico e amigo do Sonic Youth, Bill. Havia também a colaboração do diretor Richard Kern já que seus filmes eram exibidos ao fundo da performance musical. Um novo amor e uma nova chance também completam o desfecho do livro. O que Kim Gordon leva da experiência do Sonic Youth consigo é a libertação visceral de tocar e a percepção de que a vida nos palcos não se distancia muito da vida real, pois como ela mesmo pontuou na sua performance de Aneurysm do Nirvana, quando eles foram induzidos ao Rock and Roll Hall of Fame em 2014, uma explosão de dor tomou conta de si e os palcos foram os verdadeiros diários íntimos de Kim Gordon que ela sempre guardará para si mesma.

  


Body/Head, Kim Gordon, festival Supersonic  2012



Foto: Atiba Jefferson (2014)


Kim Gordon ao lado dos membros reminiscentes do Nirvana no Rock and Roll Hall of Fame (2014)



Eu e minha cópia do livro. Fã realizada!


Algumas referências citadas por Kim Gordon ao longo do livro:

Videoclipe de Death Valley '69 do álbum Bad Moon Rising. Kim fala que a música é  sobre como Charles Manson assassinou os anos 60 e toda sua ideologia pacífica e hippie. Como ela mesma grifa no livro: " [...] eu preferia cantar sobre as trevas que cintilavam debaixo da colcha brilhante da cultura pop americana."




Ciccone Youth- projeto paralelo do Sonic de 1986.  Dentre as faixas do "Whitey Album" havia um cover da música Into the groove da Madonna, além dela estar presente na capa, e na biografia Kim Gordon analisa a revolução sexual da artista pop como despretensiosa e que seria transformada em uma ideia masculina de marketing.  Kim aproveita para alfinetar logo em seguida, a artista pop atual Lana Del Rey, que na mesma discussão sobre a imagem do gênero musical sobre feminismo, aponta Lana como ignorante em relação ao movimento uma vez que o que ela prega é a autodestruição da mulher.




1991: The Year Punk Broke- o início da irmandade entre Kim e Kurt Cobain. A sintonia entre Kim e Kurt foi muito mais forte do que entre ele e Thurston. Kim relembra o falecido músico e amigo como uma companhia divertida e de como estavam o tempo todo juntos. Para ela, a união entre Kurt e Courtney Love simbolizava a aniquilação que ele buscava.




X-Girl - a linha de roupa que transitou de cult para popular no Japão. Em 1993, a vida de Kim Gordon era certamente agitada: Sua linha roupas marcava desfiles ao lado de figuras imponentes como Sofia Coppola e Spike Jonze, que eram casados na época, e  Beastie Boys. Além disso, ela fundou ao lado da sua grande amiga e guitarrista do Pussy Galore, Julia Cafritz, o projeto musical, Free Kitten. E como se não bastasse, engravida de sua primeira e única filha, Coco.



Último show do Sonic Youth no SWU de 2011- "Meu futuro ex-marido e eu enfrentamos aquela massa de brasileiros molhados pulando, nossas vozes juntas corrigindo as palavras antigas ( da música Death Valley0 , e para mim foi uma trilha sonora em staccato de energia crua e surreal, de raiva e dor: Hit it. Hit it. Hit it. Bater.Bater.Bater  Acho que nunca em senti tão sozinha em toda a minha vida. (p.13)"




Kim cantando Aneurysm do Nirvana no Rock and Roll Hall of Fame em 2014."Kurt foi o artista mais intenso que eu já tinha visto. Durante o show, eu só pensava em como queria passar o mesmo tipo de audácia para o público. Eu cantei "Aneurysm", com seu refrão, "Beat me out of me"("Me bata até que eu saia de mim:) trazendo toda a minha própria raiva e mágoa dos últimos anos-- uma explosão de dor de 4 minutos, onde eu pude finalmente me permitir sentir a tristeza furiosa pela morte de Kurt e tudo que a cercou. (p.284)"




 Quer mais referências? faz o download do livro aqui e  depois volta para deixar suas observações sobre a leitura.




*exceto por Anne DeMarinis, que assumiu os teclados e backing vocals  por pouquíssimo tempo na banda, saindo antes do homônimo álbum de estreia.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Crítica: Die bitteren Tränen der Petra von Kant (1972)



Die bitteren Tränen der Petra von Kant, As Lágrimas Amargas Petra von Kant, em português, é um filme  alemão de 1972 do renomado diretor Rainer Werner Fassbinder. Foi durante esta época que o diretor explorou mais a fundo temas como solidão, homossexualidade e a hipocrisia existente em  dinâmicas de poder entre as pessoas. Provocar era com ele mesmo já que teve um vida curta e marcada por extremos. O mesmo questionamento da banda Le Tigre ao diretor John Cassavetes na faixa What's Yr Take On Cassavetes  pode ser aplicado a Rainer: Misógino ou gênio? 
Pode-se afirmar que havia um certo sadismo no modo que ele construía seus personagens, e muito da sua vida pessoal foi inserido nas telas. Apesar de dividir distintas opiniões em relação a suas reais intenções cinematográficas, Fassbinder de fato foi um homem prolifico,  produzindo diversas obras, entre elas peças, antes dos 40 anos. As Lágrimas Amargas Petra von Kant nunca esteve na lista dos filmes preferidos do cineasta, enquanto encabeça a de vários fãs, e o motivo talvez esteja na sua intimidade mais dolorida que foi exposta de forma igualmente penosa. O filme se inicia com a designer de moda, Petra (Margit Carstensen) sendo acordada por sua assistente Marlene (Irm Hermann). Logo percebemos como funciona a relação entre as duas.Marlene é silenciosa e subserviente, mas sua condição se dá devido ao amor platônico que nutre por sua chefe. O seu olhar franzido e as constantes batidas nas teclas de datilografar ,que é o som ambiente do filme, traduz-se como sua única voz, a voz do seu sentimento, como o som de algo repetitivo e cansativo, mas que se sabe que haverá um fim. Quando a prima de Petra, Sidonie (Katrin Schaake) faz uma visita, nota-se uma alusão ,em concordância com as mudanças sociais da época, ao movimento feminista, no qual questões como divórcio, homossexualidade e de classe eram postas em pauta. O diálogo entre as duas traz de um lado a progressista Petra, que afirma estar cansada dos homens e que questiona o pensamento conservador e submisso que Sidonie tem no tocante ao casamento e ao papel da mulher. "Você evidentemente não está acostumada a mulheres que usam seus cérebros." afirma Petra. É importante observar que apesar da visão feminista da protagonista, ela ainda mantinha uma relação de poder opressora com a sua assistente, evidenciando as contradições que vão permear o longa. As nuances dominadora e independente que temos de Petra logo se desfazem quando ela conhece através de sua prima, a aspirante à modelo, Karin Thimm (Hanna Schygulla). A paixão se desvela a partir da dependência emocional que Petra projeta em Karin, enquanto Karin projeta em sua amante, à sua ascensão artística e financeira. Dessa forma, é possível traçar um paralelo entre a arte e a vida de Fassbinder. O diretor manteve relações tanto com mulheres quanto com homens, e ao se envolver com o ator bávaro, Gunther Kaufmann, as intenções deste eram similares àquelas de Karin.   


Petra e Karin vivem uma relação tão falsa e vazia quanto as manequins que decoram o quarto da protagonista.


  É importante destacar que Fassbinder e a atriz que interpreta Marlene, Irm Hermann, viveram juntos por vários anos e em 1977, ela declarou que sofria violência doméstica por parte do diretor. Irm era secretária dele quando a lançou no mundo do cinema e a reservava papéis de mulheres humilhadas. Eis aí outra projeção da vida real no mundo da arte. Outro aspecto notável é o pano de fundo do quarto feito a partir da pintura Midas e Bacchus de Possin. Midas se configura como a única presença masculina no filme  e a nudez do homem não anuncia o poder masculino  uma vez que a história se centra em um romance feminino. Karin não poupa esforços ao humilhar a mulher que a ama. Ela reconta sua traição com um homem de forma sádica. Quanto mais Karin desdenha Petra, mais esta se joga aos seus pés. Quando Karin decide voltar ao seu marido, Petra se afunda na bebida e na sua autodestruição. Sua palidez se evidencia e dá lugar à vivida troca de figurinos e maquiagens. Este elemento se configura como simbolismo ao estado de espírito da personagem. Agora pálida e desolada, Petra precisa descontar sua raiva em alguém mais próximo. A cena seguinte de seu aniversário é um impiedoso espetáculo das relações abusivas familiares. A sua mãe, a sua filha e a sua prima são as únicas presentes no dia do seu aniversário e ela demonstra desprezo pela recente descoberta sexual da filha, pela presença de sua prima e pela submissão de sua mãe ao seu pai. A única pessoa que importa para ela é Karin, e ela alega isso ao dizer que o dedo mínimo da sua amada vale mais do que todas juntas. Ao perceber que Karin não iria aparecer mais em sua vida, Petra surta e quebra os presentes trazidos por sua prima. Só depois do completo desgaste emocional é que a protagonista se mostra arrependida de seus abusos e ciente de que o que manteve com Karin não era saudável. A cena que mais chama atenção é a que Petra pede desculpas à Marlene, alegando que tudo será diferente. Ao notar que a intenção da patroa não era amorosa, Marlene faz suas malas e deixa o quarto sombrio e solitário de Petra.  Uma das leituras que pode ser feita do filme dialoga bastante com a nossa atualidade. As relações abusivas que geram dependência emocional e que resultam na solidão. Cada vez mais, as pessoas se tornam individualistas e solitárias  por conta dos desgastes de relações anteriores. Conviver com a solidão não é fácil, mas o branco e o preto da cena final talvez seja a busca interior pela paz em conflito com  o lado sombrio da solidão. 



Sem extravagâncias e sozinha, a personagem  Petra é humanizada ao se mostrar arrependida de suas atitudes




Fontes:

https://en.wikipedia.org/wiki/The_Bitter_Tears_of_Petra_von_Kant

https://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/features/the-bitter-tears-of-petra-von-kant-loves-a-bitch-114613.html  

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

L7 no Brasil: Raw power, punk rock manifesto e ecstasy!

L7 em frente ao Bar Opinião, onde elas tocaram em Porto Alegre e eu fui!
 Fonte: L7 Official Facebook


No dia 04/12/18 pude realizar meu grande sonho de assistir a um show da banda feminina L7 em Porto Alegre. Contemporâneas de Babes in Toyland e Hole, a banda despontou no início da década de 90 com seu álbum Bricks Are Heavy (1992) produzido pelo futuro baterista da banda Garbage, Butch Vig. Nasci em 1995, mas durante minha adolescência fui conhecendo aos poucos, graças à MTV e ao pouco acesso à internet que tinha na época, o som do L7. Em 2011, a MTV lançou um especial de 20 anos de 1991: The Year Punk Broke, documentário que registrou bandas em ascensão na época como Nirvana e Dinosaur Jr.. Eu tinha andado em um roda-gigante naquela noite pouco antes de chegar em casa e assistir a partes dessa obra-prima essencial na prateleira de qualquer apaixonado por rock. A partir dali, a cena cultural da década de 90 se tornou o verdadeiro parque de diversões para mim. Não demorou muito para chegar até L7 através das bandas de meninas que ia descobrindo como Bikini Kill e Babes in Toyland, além do movimento Riot Grrrl que levo comigo em tudo que faço. Baixei um programa de download de música no celular e Off The Wagon tornou-se minha principal companhia na andada que eu dava de casa até a escola durante o Ensino Médio. Aos poucos também fui conhecendo cada uma das integrantes e me apaixonando por suas particularidades. A voz rasgada de Donita Sparks e seus shorts jeans curtos . As acrobacias de Jennifer Finch nos palcos, a relação amorosa que Suzi Gardner mantém com seus riffs e seus óculos escuros e a jovialidade orgasmática com que Dee Plakas detona sua bateria. Só anos depois percebi que L7 representava muito mais do que quatro mulheres fazendo rock'n'roll. Ao entender melhor a pouca representação que a mulher tem nas artes em geral, pude notar que elas desafiavam qualquer padrão bonitinho que reservaram para nós mulheres. Quatro mulheres fazendo rock'n'roll e promovendo feminismo  político e musical. Quatro mulheres fazendo rock'n'roll e  jogando tampão sujo na moralidade de quem se afirma maioria.  Quatro mulheres fazendo rock'n'roll e baixando as calças contra o pudor feminino. L7 mostrou ao público durante a década de 90 que as mulheres podem fazer o que quiser e ainda assim serem ouvidas e respeitadas. E elas voltaram para vadiar mostrando a mesma essência de sempre, rompendo com a ideia de que o envelhecimento feminino encarcera e priva a mulher de suas liberdades. Como Suzi Gardner canta em dos singles recentes da banda: " Gritar a minha mente é o meu negócio". Ufa, depois dessa apaixonada introdução preciso relatar de forma ainda mais apaixonada como foi viajar de Sergipe até Porto Alegre para vê-las.   


Declarando todo meu amor por Donita Sparks momentos antes do show no centro de Poa


Rolou até um sorvetinho do McDonald's para ela, vejam que amorzinho  


Horas e horas de voo e ansiedade me traziam à mente porque eu tinha saído de tão longe para ver L7. Tenho um afeto muito grande pela banda não só pelo tipo de som que faz a minha cabeça, mas também porque quando passei por momentos difíceis em minha vida, bastava assistir a um show, especialmente o que elas fizeram há 25 anos aqui mesmo no Brasil, no extinto Hollywood Rock, e eu me sentia imersa, eletrizada e milhares de outras sensações que não se sabe explicar. Só se sabe afirmar que elas são as melhores e as que nos fazem seguir em frente. Minhas amigas do L7 ficaram dois dias em Porto Alegre assim como eu. Conversava com a minha melhor amiga, Louise, sobre como seria maravilhoso se eu pudesse entregar nas mãos de Jennifer Finch, baixista da banda, cópias da minha zine "I Wanna Be Yr Grrrl"e acreditem ou não, isso de fato aconteceu! Cheguei encima da hora no show que ocorreu no Bar Opinião, localizado na Cidade Baixa, perdendo a abertura de duas outras grandes bandas, Os ReplicantesBloody Mary una Chica Band, mas eu estava extasiada e mais pirada do que a galera do clipe de Black Hole Sun do Soundgarden e perdida na noção de tempo e espaço . Trêmula e chorando muito, estava próxima ao palco quando Donita e sua trupe chegaram detonando ao som de Deathwish. Elas fizeram uma sequência com Andres e Everglade, provando que cada uma tinha sua autenticidade. Foi após o fim da primeira música que encontrei uma brecha na grade e aos gritos de "Jennifer, this is for you" foi que Donita olhou para mim e logo após Jennifer, que pegou das minhas mãos meu pacote com cópias da minha zine. Esse foi sem dúvida, o maior momento da minha vida uma vez que foi através do rock feminino e do riot grrrl que hoje sou escritora e é isso que me mantém seguindo em frente. Houve meu momento cute  mandando vários beijos e corações para elas, até que Donita me retribuiu. Chorei ao som de One More Thing  porque é a música que mais dialoga com meu 2018, após meses de burnout. Eu estava bem na frente de Jennifer Finch e tudo aquilo foi muito surreal. L7 batia cabeça, brincava com a plateia com suas implicações sexuais de sempre, é só lembrar do party naked lá de 93 e da Donita nessa semana dizendo que dormiria com todos ali presentes no Bar Opinião. O setlist do Circo Voador no Rio, do Tropical Butantã em São Paulo e nas demais cidades foi o mesmo, com elas finalizando as apresentações com uma das músicas que provam a completa perspectiva  feminina em todos os momentos da banda. Fast and Frightening faz alusão a uma das membros da banda Lunachicks, alguns dizem que é sobre alguém do 7 Year Bitch. De qualquer forma, L7 sempre abraçou a causa feminista e não pode deixar de lado seu engajamento antes de tocarem seu mais novo single, Dispatch From Mar-a-lago. Donita fez um discurso contra o brazilian Trump  que nem precisa ser revelado, no entanto, ocorreu uma falha de comunicação entre plateia e banda porque houve várias vaias enquanto ela fazia seu discurso. Alguns afirmaram que as vaias eram uma forma de reforçar sua posição enquanto que a banda entendeu as vaias como uma rejeição a tal posição. Quando cantaram o seu hit mais famoso, Pretend We're Dead   na parte em que Donita fala " eles não são a moral nem a maioria"ela complementa com um "you assholes" delicadamente dedicada àqueles que supostamente foram de encontro à sua opinião sobre o "novo"presidente deste nosso Brasil. Trouxe de lembrança física desse momento, que logo se tornou o melhor da minha vida, o flyer lindíssimo do show além de uma camisa da banda. De  abstrato trouxe aquela sensação de dever cumprido. Trabalhei duro o ano inteiro para poder realizar esse pequeno grande sonho. Como diria meu amigo rockeiro das antigas citando um disco do Made in BrazilAdelvan Barbosa,  que há 25 anos ficou preso no trânsito sem comunicação e perdeu o show do L7 no Hollywood Rock:  Deus salva, mas o rock alivia.    



Registro do show por Gabriela Gelain ♥ 


Pós show de alma lavada por ter presenciado o melhor momento da minha vida!


Essa doida aí na frente da Jennifer fazendo as mãozinhas rock'n'roll sou eu haha

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Crítica: A Star Is Born (2018)




Nasce Uma Estrela é um remake realizado e estrelado por Bradley Cooper. Em cada uma das  três versões anteriores, a história se desenrola a partir do envolvimento amoroso entre dois artistas e o preço da fama no curso de suas vidas. Também é válido dizer que cada filme se ambienta de acordo com o background artístico que dialogava com a sua época. Em 1954, por exemplo, na versão protagonizada por Judy Garland e James Mason, os musicais eram o grande sucesso do momento. Já na de duas décadas depois, estreando Barbra Streisand e Kris Kristofferson, a atmosfera rock'n'roll dominava com a explosão da contracultura, festivais como Woodstock e as grandes bandas da época como Rolling Stones.Em 2018, a música country e o pop dialogam com o contexto norte-americano. Porém, esta é só uma observação inicial que se pode traçar sobre os filmes. Há grandes questões em torno de outros tipos de mudanças e a necessidade de questionar se elas estão de acordo com nossas demandas atuais.
A primeira que me veio à mente foi a questão da mulher. No acordar do #metoo e de outros movimentos que ressignificam o lugar da mulher, atentamos muito mais do que antes, a como ela tem sido representada em diferentes mídias. Quando  a versão de Barbra Streisand estreou em 1976, a segunda onda feminista florescia em passos largos e assim, as personagens femininas no cinema foram aos poucos, respondendo às novas identidades que podiam assumir. Babra é um exemplo disso e sua protagonista era tão assertiva que isso gerou uma antipatia entre colegas de trabalho. O remake atual, conta com a artista consagrada Lady Gaga no papel de protagonista. O roteiro de Nasce Uma Estrela se inicia com o estrelato masculino. Bradley Cooper interpreta Jackson Maine, um artista country que brilha nos palcos, mas tem sua vida pessoal ofuscada por vícios e um passado familiar amargo. Seu ar alcoolizado denuncia também uma profunda tristeza que ao longo do filme será bem explorada. Já Lady Gaga interpreta, Ally, a garçonete sem sobrenome, que compõe, embora não acredite em seu potencial. Apesar disso, ela brilha ao performar uma versão de La vie en rose inspirada por Édith Piaf, em um clube noturno LGBT. O personagem de Cooper estava de passagem pela cidade por conta de um show e ao parar no clube, se hipnotiza pela forte presença de Ally. O melhor amigo da protagonista é fã de Jackson, e ao reconhecê-lo,  apresenta seu ídolo à sua amiga. A química é logo imediata, e a famosa cena da sobrancelha falsa de outros filmes é registrada nessa versão também. Ao saírem juntos na mesma noite, Ally demonstra estar confortável o suficiente para compartilhar uma das suas composições. Jackson se propõe a mostrar ao mundo o grande talento por trás da tímida garçonete. Podemos delinear a partir do contato inicial entre os dois que o show business sempre foi um jogo mais fácil para os homens. A personagem de Lady Gaga inicia o filme terminando um noivado dizendo "homem é foda!" e a mesma mensagem servirá de pano de fundo quando Ally tenta construir sua autonomia pessoal e profissional. Seu pai é motorista particular de celebridades e em uma das conversas com seus colegas de trabalho na casa em que mora com a protagonista, afirma que algumas pessoas, mesmo talentosas, ficarão só na plateia assistindo alguém com o mesmo talento, mas que foi além. A insegurança e raiva vulnerabilizam a personagem, tornando-a assim, de fácil identificação com o público feminino. Ally se submetia a um emprego que a frustrava, especialmente por causa do tratamento de seu patrão, e seus sonhos foram adormecidos porque para se chegar lá, a mulher tem de enfrentar vários obstáculos, sendo sua aparência o principal critério na avaliação de suas capacidades. Eu me senti íntima de Ally uma vez que sua narrativa é a de muitas mulheres adultas que desacreditam na consolidação de sua autonomia.
Quando Ally solta a sua voz aos poucos, ao ser convidada para cantar com Jackson a música que havia apresentado a ele na noite anterior, ela passa a sensação de que algo inacreditável estava acontecendo diante de si mesma. É impossível não comentar a fidelidade sentimental que Lady Gaga conferiu à sua personagem. Tudo aconteceu muito rápido e dali em diante, a forma que a sociedade vai aos poucos podando a liberdade feminina, torna-se mais evidente. 

Ally encontra seu espaço nos palcos somente por causa de um homem. Para manter a posição conquistada, a personagem terá que se adaptar conforme os padrões sociais femininos 


Nasce Uma Estrela de 2018 marca a estreia de Bradley Cooper como diretor.  Na demanda atual em relação à representatividade feminina no cinema,pode-se dizer que a sua Ally tinha tudo para ser uma personagem multidimensional. No entanto, o foco do filme é em Jackson, e como em outros filmes, a protagonista vai limitando seus lugares de alcance para cuidar de seu desequilibrado parceiro. Apesar da imagem de caubói, a vulnerabilidade emocional de Jackson rompe com o tabu da virilidade masculina. Há uma profundidade na exploração do seu personagem que não ocorre com Ally. Quando um produtor aborda a artista após um dos shows, perguntando se ela estava disposta a ir além e apostar em uma carreira solo, a personagem hesita e não sabe o que responder. Sua falta de assertividade deriva do medo internalizado que nos impede de ser mais ambiciosas do que os homens em nossa volta. Mulheres artistas ambiciosas demais como Courtney Love e até Barbra Streisand foram demonizadas e odiadas pelo meio artístico e público. Recentemente, encontrei um comentário em um fórum online de alguém que alegou odiar Barbra pelo simples fato dela ser politizada.
Ao aceitar seguir como artista solo, a protagonista recebe apoio de seu marido. Essa é outra questão que merece ser destacada no filme. O companheirismo se contrapõe ao número crescente de relacionamentos abusivos e de relações líquidas. Entretanto, Cooper decidiu manter-se fiel à premissa nos outros longas em relação ao sentido original do seu título. Ally torna-se rapidamente, uma artista pop de sucesso, seguindo as ordens de seu produtor no tocante à mudança de sua aparência e à superficialidade de suas letras, que se distanciam de suas composições próprias. Enquanto Ally atraí mais e mais fãs e reconhecimento artístico, Jackson se afunda em sua depressão. A ideia de que a ascensão de uma mulher simboliza a destruição do homem pode ser interpretada no filme, porém, a mesma pode ser relativizada ao fato de que a profundidade na construção do personagem de Jackson nos leva a acreditar que sua doença se agravaria com ou sem Ally. Sua companheira tanto foi quem o manteve feliz por momentos embora suas falhas com ela serviram como gatilho emocional.
 

 
Nasce Uma Estrela lida de forma sensível com a depressão e é sem dúvida, a versão mais humanizada entre os filmes



A última questão que eu gostaria de destacar é sobre o suicídio. Como citado anteriormente, Jackson sofria uma depressão profunda por causa de seus problemas familiares. Seu núcleo familiar é masculino, sendo o relacionamento com seu pai e irmão conturbados. O primeiro faleceu quando ele ainda era novo e o influenciou no alcoolismo. Seu irmão é centrado e é quem administra a sua carreira, mas ele aparenta já ter suportado mais do que o suficiente os excessos do irmão. Em Ally, Jackson busca a saída para seus conflitos, no entanto, quando o empresário de Ally o acusa de estragar a sua carreira, o fardo fica pesado demais para ele lidar. Jackson já tinha tentado suicídio quando adolescente e sem dúvida, sair do cinema sem mergulhar em lágrimas era quase impossível. O que aconteceu com Jackson também ocorreu com Chris Cornell, ex-líder da banda Soundgarden. Chris sempre foi um dos meus maiores ídolos não somente por sua música, mas também pelo seu grande coração. Desconhecíamos a sua dor assim como a de Jackson, e ao lembrar que ambos partiram da mesma forma me deixou profundamente emocionada mesmo  horas após o fim do filme. Espero que as análises sobre Nasce Uma Estrela mencionem esta questão ainda tão repleta de tabus e ignorância para que mais pessoas se informem e se sensibilizem com a dor do próximo. A versão atual de um clássico traz questões sociais ainda antigas e mal resolvidas, mas que não impedem um amplo espetáculo de emoções humanizadas de serem a principal atracão para o espectador.






quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Crítica: Billie Holiday, A Canção de quem dançou a vida inteira no escuro

A atriz  sergipana Tânia Maria incorpora a imutabilidade da dor de Billie Holiday em diferentes palcos pelo Brasil

Meu primeiro contato com Billie Holiday não foi por meio de sua imponente voz, mas assim por meio de uma visão masculina. Jack Kerouac, autor de grandiosas obras da Geração Beat, transpôs o jazz, tornando-o um catalisador de diferentes anseios e dores que permeavam as transgressoras almas de seu tempo. Billie Holiday foi lida, em suas obras, como  a perfeita encarnação da mulher abatida e entregue à melancolia. Tristessa, que ironicamente se chamava Esperanza, era a mexicana viciada em morfina e que afirmava constantemente que estava enferma. Kerouac apaixonou-se pelos detalhes vivos e sombrios que ao final do dia se sintetizavam em um pico. Tristessa se tornou um dos retratos mais delicados delineados pelo autor. Seus olhos misteriosos de Billie Holiday não escondiam que a vida era dor. Muito mais do que um olhar, as duas mulheres tinham em comum a transgressão de como a mulher lida com seus dilemas. Ambas foram prostituídas e falharam em papéis normativos de gênero. Podemos cruzar com várias Tristessas e Billies por aí, elas foram por muitas vezes, retratadas sem a profundidade subjetiva feminina a qual nós mulheres, buscamos identificação. Ao assistir à peça,  Billie Holiday, A Canção, aqui em Aracaju, tive acesso a este insight. A mulher que Billie Holiday representa é universal e atemporal.  Somos expostos a um confronto social em que a enferma e amarga Lady Day  luta com uma força visceral contra os males que deixaram ela, e deixam ainda, tantas mulheres enfermas. 

(…) a visão de Tristessa em minha cama, em meus braços, a estranheza de seu rosto amoroso, asteca, garota índia com olhos de Billie Holliday misteriosos e semicerrados e com uma grande voz melancólica como as atrizes vienenses de rostos tristes como Luise Rainer que fizeram toda a Ucrânia chorar em 1910. "

A peça se inicia com a voz de um radialista anunciando quem era Billie Holiday. A atriz que interpreta Billie de forma exemplar, caminha no escuro, simbolizando, assim, a falta de clareza que temos sobre a versão da mulher sobre a sua própria história. Somos deslumbrados pela Billie que performa em seguida. Sua elegância e voz nos desconcertam, no entanto, o glamour cede espaço a um ambiente sórdido e real na vida de muitas mulheres que foram privadas de sua liberdade por conta de estigmas sociais. A sergipana Tânia Maria intercala os passos de Billie entre um quarto de hospital e o palco Algemas penduradas na cama contrastam com a droga heroína sob a mesma. A vida de Holiday, assim como a de Tristessa, era dor. A heroína, como também a bebida, eram o perigoso escape a tudo aquilo que a assombrava. Apesar disso, era nos palcos que ela verdadeiramente expurgava seus demônios. A Billie que conhecemos através da  peça tem muito a nos falar. Seu monólogo é um grito em forma de protesto a todas as vezes que foi silenciada por ter sido pobre, negra, prostituída, viciada e artista! O machismo e racismo na vida de Billie, traduzem a sua história de forma universal. Mulheres de outrora e do nosso tempo dialogam com o preconceito e luta que Billie expressa em músicas como Strange Fruit.  

Billie Holiday durante uma gravação na Columbia Records, Nova Iorque, 1957


O tom amargo da atriz intensifica aquilo que se deseja dizer além das palavras. Em certo momento, ela abre uma maleta com fotografias de amantes e próprias da época dos holofotes. Ela as joga pelo ar de forma brusca – assim como cada gesto seu comunica o peso de uma dor passada– e lembranças são tudo que resta para a mulher que canta o blues. Onde Billie pudesse enxergar felicidade, a música teria de estar lá. E o objetivo da peça, ao meu ver, era de oferecer uma narrativa alternativa à qual enclausurou a artista na dor que a sociedade cruel lhe impôs. Por conta disso, a performance teatral se encerra com uma cancão dedicada à ela mesma, atendendo ao seu maior desejo uma vez que tudo que Billie Holiday sempre quis foi ser apreciada naquilo em que chamava de sua vida, a música. 
Os últimos momentos do ícone do jazz foram pensados e elaborados de forma que correspondessem a um resgate necessário: a voz da mulher negra enquanto marginalizada. A oportunidade de conhecer o íntimo de Billie Holiday através de outra mulher é importante na questão da representatividade, da mesma forma que precisamos atentar que a sociedade atual põe em risco a existência e resistência de muitas Billies.  


domingo, 16 de setembro de 2018

Crítica: Disobedience (2017)


[Friso que todos meus posts sobre filmes contêm spoilers] 

Algumas produções cinematográficas inspiradas em romances ou não,quando retratam casais LGBT, repetem um padrão de separá-los no final, mostrando que a sua união entre não pode ser consolidada. Carol (2015); La vie d'Adèle (2013) entre outros exemplos, apresentam casais de lésbica como foco de sua narrativa, porém, suas protagonistas enfrentam diferentes adversidades que as impedem de ficar juntas. É como se o amor gay não tivesse destino feliz. Embora esse fator não diminua a importância da representatividade gay no cinema, o brasileiro "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" ganhou fama internacional, a maioria filmes dessa categoria ainda são tachados como de baixa qualidade ou categorizados como pornôs. Obras como Desobediência, do mesmo diretor de Uma Mulher Fantástica, trazem personagens multidimensionais e assim, complexas, ampliando o lugar de identificação e de seriedade em relação às narrativas LGBT.
Desobediência traz Rachel Weisz como Ronit Krushka, uma fotógrafa de origem judia que vive em Nova Iorque. Ela carrega consigo um olhar pesado e angustiante, além de uma vida solitária, transando com estranhos em festas após o fim do seu expediente. Ronit recebe a notícia de que seu pai, rabino que reside em Londres, morreu e assim ela parte para seu último adeus. Porém, logo descobrimos que a relação entre Ronit e seu pai, assim como entre os membros da comunidade judaica, não era amistosa. As escolhas que a filha distante fez eram consideradas uma traição aos princípios da religião e principalmente ao pai, figura maior e sagrada entre os membros da comunidade. A fotógrafa aos poucos se acomoda no lugar por reencontrar seu amigo de infância e protegido de seu pai, Dovid Kuperman (Alessandro Nivola). Quando Ronit revê outra amiga de infância,Esti (Rachel McAdams) e descobre que ela e Dovid são casados, há um clima de tensão no ar. A comunidade se mostra ofendida com a presença da filha do rabino não só porque ela decidiu ter uma vida diferente daquela imposta para as mulheres dali, mas também porque ela e Esti foram no passado,flagradas se beijando pelo rabino. O conflito entre a moral religiosa e a mulher se faz como ponto principal a ser refletido por quem assiste à obra. A comunidade mantém valores patriarcais e Ronit representa o rompimento com todos eles. É interessante ver a protagonista tentando se encaixar naquela realidade para que possa ser respeitada. Mais do que um filme lésbico romântico, Desobediência questiona a manutenção de valores morais que restringem a mulher e conferem liberdade ao homem. Esse frame  de uma realidade muito maior mostra as estruturas patriarcais de forma sútil mas ao mesmo tempo elas exercem uma enorme tensão que se cessará quando o amor entre as duas mulheres for maior do que qualquer amarra social e religiosa. 

Rachel Weisz transmite ao telespectador as diferentes nuances de sua personagem: a dor, a rebeldia
 e o anseio pela libertação de seus conflitos internos


As duas se reaproximarão aos poucos. O olhar se configura como simbolismo forte no filme.A começar pelo poster oficial em que o olhar da personagem de McAdams transparece culpa ao passo que o de Weisz simboliza uma entrega apaixonada. Os papéis sociais de uma mulher pesam muito mais para Esti do que para Ronit, que tornou-se uma mulher independente explorando seus próprios anseios. Para Esti, a liberdade é uma palavra masculina, mas por dentro,há o escape à realidade que vive. Ela confessa que sempre gostou unicamente de mulheres, e Ronit seria para ela, a única chance de explorar seus próprios desejos libertários. É importante questionar também porque a fotógrafa não se sente satisfeita com a vida independente que alcançou fora dali. A complexidade em entender a subjetividade das duas personagens torna o filme relevante na ampliação das dimensões do sujeito mulher no cinema. Em uma das cenas em que se beijam próximo a um parque, são flagradas por um casal que as denuncia para a congregação. Não demora muito para que a notícia chegue até Dovid e para que assim, o clímax do filme se traduza em um instigante questionamento: Por que a liberdade feminina ainda é algo a ser conquistado? 
Por muito tempo,a liberdade feminina tem sido distorcida  por dogmas religiosos que se transpuseram para a política e assim para a sociedade, e claro, outros fatores também determinaram o que significaria a liberdade da mulher. Em 2017, a luta feminista ainda prioriza a independência, no entanto, como mostrado neste filme, existe uma linha tênue e complexa que divide o moralismo e essa independência. Esti não é feliz em seu casamento porque sempre gostou de garotas ao mesmo tempo que para ela, princípios da bíblia judaica importam. Há teorias que datam desde o século XX que tentam simbolizar características de Deus de forma feminina como há também o judaísmo feminista que busca garantir a voz feminina ativa nas comunidades. Quando Esti se descobre grávida de Dovid, ela o pede a sua liberdade. Relutante, Dovid a concede após um discurso sobre livre arbítrio na congregação que tinha acabado de elegê-lo como o sucessor do falecido rabino. Apesar do afeto que as duas personagens nutre uma pela outra, Esti decide ficar na comunidade ao lado de Dovid. Aquela era a única realidade que conheceu, no entanto, não podemos julgar as escolhas das duas mulheres e sim apreciar o fato de que, por mais que as escolhas que fazemos nos levem a caminhos insatisfatórios ou não, poder provar um pouco do que simbolizamos como liberdade, ameniza o peso da realidade que temos que enfrentar. 




Desobediência é um marco na produção de obras LGBT pois suas personagens femininas principais são complexas e conscientes de suas realidades sociais opostas.