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Larissa Oliveira
Sergipana e professora bilíngue, admira os mais diversos tipos de arte e já teve seu momento Twin Peaks, além de epifania ao ler o romance que dá nome a este blog, A Redoma de Vidro de Sylvia Plath. Este Blog nasceu em 2014 e é dedicado a críticas de filmes, livros, séries e música, sendo que as dos três primeiros contêm spoilers. Boa leitura!

Crítica: Réponse de Femmes: Notre Corps, notre sexe (1975)



"Sou uma mulher. Mulheres precisam ser reinventadas. Então, o amor precisa ser reinventado."

Atemporal e imenso. Se eu pudesse definir esse curta da Agnès Varda em apenas duas palavras, seria atemporal por tratar de questões femininas ainda relevantes e imenso por ser capaz de em menos de 8 minutos, perturbar intensamente a nossa sociedade patriarcal. O nosso corpo e o nosso sexo, de acordo com a sociedade, não são exatamente nossos. Se você os clama, você é histérica. Se você os vende, você é aplaudida. O curta foi produzido numa época em que a liberdade sexual feminina era discutida largamente. Porém, o discurso ao nosso favor era deslocado para a opinião imediata e machista. É por isso que ainda lutamos tanto para a desconstrução do feminino moldado pela sociedade. Somos o  segundo sexo.Nossas demandas são atendidas pelo Estado de acordo com a visão dele. Somos ouvidas se cooperamos conforme determinado. A denúncia de Varda está no nosso silêncio. Mulheres de diferentes gerações respondem a questões simples,porém no fundo complexas, sobre o nosso mundo. 

''O que é ser mulher?''


Ser mulher parece estar intrinsecamente ligado ao nosso corpo de forma que seja submetido aos desejos masculinos. O sistema capitalista aliado à mídia, o objetifica, determinando seus papéis e suas restrições. O espaço privado da mulher, destina-se à vida familiar e à submissão, enquanto o público, ainda que com acesso à educação e emprego, restringia-se o seu alcance. A mídia estampava que a mulher conseguiria um emprego se fosse esbelta a partir da utilização de sua nudez em propagandas ligadas ao campo profissional e as  destinava ao público masculino. Ainda há propagandas, as de cerveja é um exemplo claro, em que a mulher é representada apenas como um objeto desejável. Porém, ao mesmo tempo, temos aquelas que mostram a mulher conquistando o seu lado profissional sem que sua aparência tenha sido requisito para tal. Sim, ser mulher é viver em contradição.
A mulher da década de 60 em diante anseia pela autonomia em suas escolhas, e esse embate sugere a redefinição do que é ser mulher. Ter o corpo de uma não é suficiente, e nunca foi a definição correta. Sua mente também não se sustenta mais nos paradigmas estabelecidos. A sua recente subjetividade é fruto de milhares de mulheres que através do movimento feminista, torna sua voz pessoal em política e espalha essa semente libertária sobre a vida de mulheres de diferentes classes e raças. A obra de Varda peca em retratar essa nova mulher a partir das que pertencem à classe média e a apenas uma raça. Por mais que a sua frase de efeito seja '' somos todas as mulheres'' sabemos muito bem que as lutas se interligam mas também se diferem de acordo com outros recortes além do gênero. O racismo e a sexualização dos corpos negros ainda são uma constante e a autoafirmação dessas pessoas  ainda é omitida. A interseccionalidade é essencial no movimento pois  dá voz aos diversos feminismos existentes, a fim de que possamos compreender a realidade em torno de cada uma. 



''Todas as mulheres querem se tornar mães?''

Outro tabu ligado ao nosso corpo é o da maternidade. Só somos mulheres completas se formos mães,diz uma voz masculina no curta. E o homem, será incompleto se não for pai? rebate uma das mulheres. Ser mãe não é o destino natural da mulher. É uma escolha, e como uma das mulheres na obra ressalta, vários homens na História não foram considerados menos homens por não terem sido pais. A questão ainda é atual pois a cultura que nos impõe a maternidade não mudou.Os brinquedos das meninas ainda são ligados à vida doméstica e de mãe. Se a ideologia de gênero não for repensada e desconstruída, continuaremos a perpetuar a opressão tanto para meninas quanto para meninos,pois é sempre importante reforçar que o machismo também afeta a vida deles. 

''O que é uma mulher de verdade?''

A mulher de verdade, segundo a sociedade, é aquela bela, recatada e do lar divulgada recentemente na mídia brasileira, mas que tem se perpetuado há muito tempo. Como se definir mulher sem o olhar masculino? Pois bem,as mulheres precisam se reinventar por si mesmas. É que nem a existencialista Simone de Beauvoir escreve na sua bíblia feminista, a mulher é não é algo naturalmente dado, mas sim uma construção social. A mãe, a prostituta, a lésbica, a trans, têm adquirido novas configurações e as delimitações feitas uma vez pela sociedade patriarcal não são mais cabíveis. A nossa sexualidade precisa ser redescoberta e vivida como quisermos. O que mais me encanta no curta é que uma questão abre campo para muitas outras. Afinal, o mundo feminino é complexo e suas interrogações ainda tentam ser substituídas por pontos finais. 
Sendo assim, que a liberdade seja a nossa própria substância. Em tempos em que o corpo da mulher é subordinado à culpa, ao domínio do Estado, temos que nos manter vigilantes e continuar lutando pela posse sobre nossos corpos, nosso sexo e nosso gênero. 

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