Crítica: Trust (1990)
Hal Hartley é um diretor norte-americano que divide a crítica no tocante ao seu estilo cinematográfico. Tendo visto 4 dos seus menos de 20 filmes, datados desde 1989. Suas narrativas trazem diálogos quase sempre filosóficos em meio a situações comuns, mas com um toque inusitado. Hartley foi capaz de transformar uma garota branca mimada em uma mulher madura ao ser acusada de matar seu pai sem ao menos ter encostado o dedo nele. Isso faz parte do enredo de seu segundo longa, Trust (1990) ou Confiança. Nele, a jovem Maria (Adrienne Shelly) porta-se como uma adolescente rebelde, responde aos pais e acaba de descobrir que está grávida. Após uma discussão com o seu pai, ela vai a procura do seu namorado só para perceber que ele a culpa por estar grávida. Sua decepção é redobrada ao retornar à casa e ser acusada de ter matado seu pai por parte da família, que sofreu um ataque cardíaco logo depois da discussão. Desolada e vulnerável, Maria confia na compatibilidade emocional de Matthew (Martin Donovan) um desajustado a suas condições de vida, cuja inteligência volta-se à crítica de uma sociedade alienada, embora se submeta à opressão de seu pai. Matthew confia à Maria seu problemático lar, e Maria confia a Matthew seus dilemas. Enquanto Matthew carrega uma granada consigo caso não suporte o peso das coisas, Maria carrega consigo uma gravidez rejeitada. A vulnerabilidade de suas vidas os une na promessa de um casamento em que um amenizaria os fardos um do outro.
Por mais que a história do filme se apresente simples, encontram-se contextos complexos que ainda não foram destrinchados propriamente na sociedade do século XXI. O desejo de suicídio de Matthew por se encontrar numa sociedade opressora e de mentes pequenas não o classifica como egoísta. Sua benevolência em cuidar de Maria contradiz ideias formadas sobre pessoas suicidas. O aborto é outro tema abordado. A protagonista opta pelo procedimento apesar da promessa de matrimônio por parte de Matthew. Nem a opressão de sua mãe, que a destrata durante todo o filme, fica no meio de sua própria decisão. Sua autonomia transparece o amadurecimento da personagem, que também é configurado na alteração de sua aparência. Nesse sentido, Hartley peca por cair na construção cultural de que uma mulher revela virtudes na forma que se veste. Maria poderia ter mantido seu visual colorido e cabelos cacheados, mas essa permanência causaria um estranhamento, pois internalizamos tipos de mulheres de acordo com suas escolhas de expressão física.
O conflito entre a protagonista e a mãe também chama atenção no filme. A gelidez desta no tratamento com a filha pode ser visto como um retrato de várias famílias atualmente. As relações afetivas estão sendo cada vez mais substituídas pela individualidade e arrogância. Os paralelos entre os conflitos do filme com a atualidade espelham uma sociedade que avança em termos tecnológicos, Matthew trabalha como operador de computadores e tv antigas, mas regride em valores humanizados.
Ambos protagonistas fortalecem a atenção mútua em meio ao caos do seu cotidiano. Embora seus filmes não sejam esteticamente agradáveis a muitos, gosto da simplicidade carregada de referências de tempo e espaço, e por isso Trust merece ser visto por quem busca esses elementos em um filme.
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